domingo, 6 de fevereiro de 2011

Mal-estar fotogénico ou Por que eu não gosto de tirar fotos


I'm nothing, I'm nothing,
I'm nothing 'till you look at me
I'm like a mirror, I'm like a mirror,
I'm nothing 'till you look at me
(Like a mirror - Morphine)



Volto a escrever após uns dias a passar mal, acho que foi este calor insuportável e alguma coisa que comi que não me caiu bem. Volto a escrever também por uma certa obrigação, um sentido que me impulsiona.
Na verdade não gosto de escrever, não me sinto à vontade, sempre acho que sempre há algo errado com minha escrita, às vezes é simplista demais, às vezes muito obtusa, nunca consigo transmitir tudo o que sinto, enfim, tenho um certo incómodo com isso.
É quase o mesmo que eu sinto quando vou tirar uma fotografia. Nunca me senti bem tirando fotos, na verdade nunca me reconheci nelas. É estranho que eu goste tanto de ver fotos dos meus amigos e fique feliz em saber (ou perceber, sei lá) uma felicidade espontânea, mesmo que momentânea, um pedaço de história, um movimento, uma lembrança. Mas eu nunca o sinto quando eu estou lá. Não sou eu quem está lá, é outra pessoa, alguém que eu não conheço, e que por vezes tenho medo. Alguém que parece querer tirar a única lembrança que eu tenho daquele momento-espaço.
Eu costumo guardar outros objectos, flyers, folhetos, cartazes, revistas, jornais, tenho até a minha caixa para guardar estes objectos, a "Fecal Matter" (adoptei-o em homenagem à banda formada em meados dos '80, e que viria mais tarde a chamar-se Nirvana).
Mas mesmo as lembranças da Fecal Matter me parecem não ser nada, eu penso que não há niguém para compartilhá-las comigo, eu tenho medo de um dia ser perguntado o que fiz de legal quando era mais jovem e descobrir, aterrorizado, que não tenho uma única foto minha daquele dia, como se essa maldita foto fosse a única garantia de uma lembrança, de que aquele momento de facto aconteceu.
Nessa nossa Era da Informação, nessa nossa tão admirada e propagada Geração Y, onde é motivo de vergonha alguém não possuir um perfil em uma rede social, onde não ter uma fotografia para ser exibida na rede gera ao mesmo tempo constragimento e desconfiança sobre a real existência da pessoa em questão e por mais que se tente permanecer alheio a essas pressões (como eu permaneci um bom tempo), é impossível não se deixar abalar por isso, impossível não se sentir mal, impossível não pensar que parece não teres feito nada de interessante ao longo da tua curta vida (embora longa de acordo com o padrão de que aos 30 já és velho e portanto deves te portar de acordo com tua idade, já não podes usar as mesmas roupas de antes, nem ouvir as mesmas músicas de quando eras adolescente, "são sem conteúdo, precisas ouvir algo mais moderado, mais adulto", tampouco ir aos mesmos lugares de antes, há lugares mais condizentes). Eu não quero saber disso, eu não quero ser visto como alguém legal e bonitinho, que depois de alguns anos vira escravo da imagem de alguém que já não é mais, prefiro o meu anonimato, prefiro não saber quem sou, prefiro o esquecimento, prefiro não tirar fotos.

Escrito numa tarde quente e abafada de verão, com um mal humor típico de quem passa mal há uns trés dias e tem de aguentar uma televisão ligada no volume máximo para as paredes.

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