domingo, 10 de abril de 2011

Sadness

Eu tentei, eu resisti, mas não teve jeito
Eu cedi e ontem comi carne
Um tanto constrangido com a pressão e o olhar dos outros
Que me olhavam a mastigá-la lentamente
E sorriam satisfeitos

Sábado, dia infeliz
360 graus
Do show da vida real
Atiradores
Ama-dores de elite
E os psicopatas nossos de cada dia
Andam a atirar para todos os lados
E a matar
Esperanças tão inocentes
Cujos amigos, irmãos, hão de vingar
Toda humilhação, um dia pois sim
Hão de ser os Filhos da Revolução


(Escrito por um bêbado satírico de Sábado, que não sabia se a Revolução chegaria em 360º através dos Filhos da Revolução, ou se o marketing só encobria o inferno da miséria humana)

sábado, 2 de abril de 2011

Fool's day

(Eu planejei escrever este post ontem, mas devido a várias contingências tive que adiá-lo...)



1 de Abril. Dia dos Tolos. Em meio àquelas brincadeiras de sempre, tento esquecer alguns problemas, a falta de tempo e de organização, qualquer trabalho serve para distrair minha atenção. E quando penso que não, lá estou eu mais uma vez aborrecido, estava profundamente chateado com algumas notícias de episódios lamentáveis que ocorreram esta semana, mais ainda com certos comentários que ouvi, queria muito que tudo não passasse de uma brincadeira de 1 de Abril. Que preconceito e ignorância fossem conceitos de formas de pensamento já superadas pela humanidade. Sentia-me mal, meus problemas pessoais pareciam abarcar também os do mundo, eram uma coisa só e por isso queria o isolamento.

E então, o inesperado. Um colega meu chegou e perguntou-me por que estava assim. Tentei desconversar, mas era impossível não perceber que eu não estava bem. Começamos a conversar, sobre um monte de coisas, minhas dificuldades, as minhas impressões sobre aquele lugar, as pessoas com quem eu mal conversava, enfim. No final, alguns comentários sobre atualidades, e qual não foi minha surpresa ao descobrir que, afinal, todo esse mau humor era uma grande bobagem! Às vezes, seja por falta de tempo ou de atenção, não paramos para entender um pouco mais sobre as pessoas que estão a nossa volta, e corrermos o sério risco de julgá-las apenas por um aspecto superficial. Foi o caso do meu colega. Eu não conversava muito com ele, e a impressão que eu tinha dele era de ser um cara de ideias fechadas. Como eu me enganei! Havia ali uma pessoa muito experiente, alguém que já havia passado pelas mais diversas situações na vida, alguém forte o suficiente para passar por muitas dificuldades e ainda manter uma alegria tão sincera e original, alguém com capacidade de entender os outros, mesmo sendo pessoas que se orientam por outras formas de pensar... fiquei com vergonha de alguns sentimentos (e pensamentos) meus, não sabia onde pôr minha cara depois que a conversa terminou. Mas tomei coragem, a única coisa digna a fazer era levantar o meu sorriso e interagir ao resto do pessoal. Era 1 de Abril, e aquela sala estava uma zona, tinha que ir pregar uma peça em alguém (sem violência, né ^^).


PS: a você que me lê, espero que, mesmo que nunca nos vejamos pessoalmente, tenha lhe ajudado a parar para pensar um pouco sobre este mundo louco em que vivemos, onde as pessoas valem mais por uma aparência do que pelo seu real conteúdo. Quem sabe juntos não possamos mudar tudo isto. Não sei quem é você, homem ou mulher, hetero ou homo, alto ou baixo, branco ou negro, gordo ou magro, ocidental ou oriental, crédulo ou cético, extrovertido ou tímido, enfim, pessoa, eu desejo muito que você tenha o conhecimento e sabedoria para ter uma vida plena e feliz.

E se pudermos ser amigos será melhor ainda!

domingo, 13 de março de 2011

Ano cotidiano

Bem, meu fim de semana não foi fácil. Minha semana não foi fácil. Meu mês não tem sido fácil, aliás, meu ano definitivamente não começou bem. Exageros à parte, é sempre isso que me vem à cabeça quando eu me sinto preso pelo cotidiano. É sempre assim, tudo começa com o cotidiano, as brigas (ou seriam barracos?) de família por motivos fúteis, a falta de tempo para me organizar, o cansaço que nunca tem fim, as poucas horas de sono, aquela apatia que te mata de raiva por não querer fazer nada quando na verdade queria fazer tudo, o fim de semana de quarto e computador, a irritação com todos e a vontade de sumir daqui o mais rápido possivel, a vontade de morrer só pra me vingar das pessoas que teriam remorsos com isso... eu não quero mais pensar nisso, pelo bem da minha saúde mental, já não quero mais essas situações, eu me sinto envelhecido uns cinquenta anos, como se minha vida escorresse pelo ralo. É por isso que eu escrevo, para exorcizar meus fantasmas, passar para o plano das palavras algo que nem as palavras sabem ao certo dizer. A escrita é assim, chega onde faz falta a fala, é o sonho da fala, a fala em seu estado ideal. Talvez pelo meu jeito mais quieto, talvez por tanta coisa guardada aqui dentro, não sei, acho que ainda tem tanto, que nunca vai ter fim, eu sempre vou lamentar-me por isso.
Ainda assim, quero continuar.



(Escrito numa noite de Domingo, depois de mais uma re(des)união em família, um carro roubado e uma estafa, a ouvir "Mal por mal" - Deolinda)

sexta-feira, 4 de março de 2011

Reencontro

Fazia algum tempo que não nos víamos. Aquela situação era incômoda, um hiato que eu tentava evitar, eu ligava e não atendia, mandava scraps, e-mails e SMS. Nenhuma resposta. Resolvi ir até o seu local de serviço. Havia se demitido e ninguém tinha notícias suas. Comecei a ficar desesperado, o que aconteceu e por quê? Nada de mal aconteceu desde a última vez que nos encontramos, aliás estávamos tão felizes... se pudesse estenderia aquela noite por toda a eternidade, ele foi bem claro comigo em dizer que estava apaixonado por outra pessoa, mas que não fosse isso ficaria comigo, que eu era a pessoa mias legal com quem já ficou, eu sabia que na manhã seguinte tudo seria diferente, nós não seríamos mais os mesmos e provavelmente não ficaríamos mais. Sim, eu sabia disso, de certa forma aquela noite era uma despedida. Mas eu não imaginava que seria assim tão bruscamente, como se simplesmente tivesse acordado de um sonho, como se fosse algo que nunca aconteceu. Merda, eu odeio esse desgraçado! Por que ele fez isso?
Não queria mais saber, tinha a minha vida de trabalho e rotina, meus amigos que ando vendo tão pouco, minha família que cada vez me é mais estranha, minhas situações cada vez mais absurdas a passar, minhas raivas contidas, meu banzo, meus fim de semana de quarto e masturbação, meus poemas inacabados, e sempre uma xícara de chá verde para tomar às quatro da tarde, pensando nesse filho da puta que sumiu.
Chegou o dia do meu aniversário, que por uma maldita coincidência também era o dele. Já fazia um mês, não tinha como não me lembrar. Mas eu não 'tava a fim de comemorar nem o meu, por que ligar para ele, aliás, o dia do meu aniversário não foi muito bom, só não foi de todo ruim porque nesse dia nasceu uma pessoa muito especial, a filha do meu primo. Além disso eu estava me acostumando com a ausência dele, tentava ser levado pelos pequenos problemas cotidianos que me engoliam aos poucos e deixavam-me cada vez mais distante de qualquer lembrança ruim.
Mas não poderia ficar assim para sempre, eu tinha consciência disso. E aconteceu que um dia, saindo com um amigo após muitos fins de semana em casa, eu o encontrei. Foi tão rápido e surpreendente que não me restou qualquer reação. Eu o vi de costas, sentado num bar, seus amigos me reconheceram e chamaram por mim, que estava caminhando em linha reta ao encontro deles, era impossível dar meia-volta ou mesmo parar, só me restava seguir em frente. Logo que se virou e me viu, seu rosto parecia surpreso, tentou esboçar um sorriso e puxar conversa:
- Oi, como você 'tá?
- Eu vou bem obrigado, e você?
- Eu 'tou bem e olha, me desculpe por ter sumido, eu vi que você me ligou, mas não tinha como eu atender...
(um de seus amigos gritou o garçom desesperadamente)
- Tudo bem, não tem problema, eu só fiquei preocupado contigo (sussurrei tão baixo que acho que nem me ouviu direito)
- Eu queria conversar com você, o que você anda fazendo?
- Ah, vou seguindo minha vida, sei lá, não mudou muita coisa... (um outro amigo lhe chamou a atenção para um rapaz que andava do outro lado da rua)
- Você não se importa d'eu ir ali só um minuto, eu tenho que resolver um problema, mas eu tenho que falar com você.
- Olha, não vai dar, eu tenho que ir, (tinha percebido a impaciência do amigo que me acompanhava, não sabia do que se tratava) amanhã eu tenho compromisso.
- Então 'tá, a gente ainda se encontra, né? (seu amigo lhe chamou novamente)
- Não sei. (saiu tão seco e espontâneo que não deu tempo nem de pensar em conter as palavras)
- Então, até mais. (sem graça)
- Até, tchau!

(…)

Idiota, idiota, idiota, IDIOTA!!! Que raiva, como ele pôde, como eu pude, mas que absurdo, como tudo isso aconteceu e eu não fiz nada?! Meu amigo perguntou o que eu tinha, chutava qualquer coisa que aparecesse em meu caminho. Enfim chegamos a meu ponto, o ônibus não demorou muito e nós nos despedimos, e agora voltava pra casa com a noite como companhia. Cheguei em casa exausto e fui para o meu quarto, deitei-me e ainda não acreditava no que tinha acontecido. Aquilo tudo acabou comigo, só me restava ir dormir, as falas se repetiam na minha cabeça, eu queria esquecer tudo, eu me sentia sufocado, queria chorar e gritar por socorro, mas não tinha forças. Liguei o rádio, tinha um CD que um amigo tinha me dado de presente com uma música tão linda e triste, queria ouvi-la agora. Fui dormir aos som de The Gift, as lágrimas no rosto e a sensação de que estava acordando de um sonho ruim, que teria que voltar a sonhar amanhã.


(Escrito numa noite de Sexta-feira, ao som de "Fácil de Entender - The Gift")

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Elegia

O céu enegrecido chorou
enquanto alimentava a terra sedenta de vida
o ar se encheu duma alegria profana que se revelava
com as folhas secas e os galhos partidos que o vento levava
para o além, ou aonde mais fosse uma imagem fluida.

Das nuvens,
(por um instante pensei que me chamavam)
as partículas ionizadas que se encontraram
exprimiram-me toda a fúria de um raio,
a descer tão rápido à terra rasgada em seu cio.

"É a chuva que faz parte de mim,
ou já sou eu parte da chuva?"
minha respiração parou por um instante
quando vi o clarão que a anunciava
e senti acelerar meu coração de repente,
arrepiar-me os pelos,
e senti
tudo o que é bom e ruim para se sentir
senti-me água, raio
senti-me ar, terra
senti-me vivo
como há muito já não era.

Era a natureza que se punha em marcha
a molhar - me olhar
como só uma tempestade podia fazer.



(Lune)

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Chá para o desaniversário

"Um bom desaniversário,
Pra quem? Pra mim.
Um bom desaniversário,
Pra quem? Pra ti."

(Alice no País das Maravilhas, versão Walt Disney)

Escrevo hoje, em mais um dia de "desaniversário", um tanto frustrado com algumas coisas. Estava tentando criar um texto, um tributo a um poeta que me impressionou muito e tive um sério bloqueio, não consegui escrever nada de interessante e a rotina atrapalhou-me muito, estes últimos dias não têm sido fáceis. A única coisa interessante a comentar é que na data do meu aniversário, há seis dias atrás, nasceu a filha do meu primo e isso deixou-me muito feliz e finalmente senti, através dessa coincidência, ter algo significativo para comemorar.
É isso, espero resolver essa crise o mais rápido possível e voltar a escrever.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Frases soltas (Reflexões conexas)

(Bem, resolvi voltar à tona um post meu do Rosa Carne, um projecto que não deu certo, acho que por falta de condições mesmo (vocês não sabem o inferno que é manter um blog só tendo acesso aos computadores do laboratório de uma universidade). Achei-o mais actual do que nunca, apesar de falar de uma obra que já foi concuída e, provavelmente, as frases soltas que eu citei já se apagaram há muito)


Eu estava reparando, nesta grande obra que é a duplicação da Avenida Antônio Carlos, todo dia eu reparo em alguma mudança, alguma obra já pronta, ou que está sendo construida, como o trânsito flui depois de certo ponto, enfim, as pequenas mudanças quotidianas de cada dia. Mas não deixei de reparar a forma invasiva como esta obra (que na verdade é um conjunto de obras) se está dando, invasiva, porque me parece que expõe certos espaços, como se quisesse engoli-los. Na verdade tudo, o marketing, a forma faraônica como se constrói, sem diálogo com a sociedade, tudo isso é invasivo. E eu percebo um pouco dessa invasão através das frases soltas deixadas pelos artistas de rua, sempre ou quase sempre invisíveis aos olhos do senso comum:

"O vento sopra, os obstáculos fazem a música"
"O asfalto me atropela"
"Se essa rua, se essa rua fosse minha, se essa rua, se essa rua fosse casa..."
"Comunidade sem unidade"
"Aqui, neste momento, eu pego o pincel e lanço uma poesia na sua testa!"
"A passos pássaros passo"