O céu enegrecido chorou
enquanto alimentava a terra sedenta de vida
o ar se encheu duma alegria profana que se revelava
com as folhas secas e os galhos partidos que o vento levava
para o além, ou aonde mais fosse uma imagem fluida.
Das nuvens,
(por um instante pensei que me chamavam)
as partículas ionizadas que se encontraram
exprimiram-me toda a fúria de um raio,
a descer tão rápido à terra rasgada em seu cio.
"É a chuva que faz parte de mim,
ou já sou eu parte da chuva?"
minha respiração parou por um instante
quando vi o clarão que a anunciava
e senti acelerar meu coração de repente,
arrepiar-me os pelos,
e senti
tudo o que é bom e ruim para se sentir
senti-me água, raio
senti-me ar, terra
senti-me vivo
como há muito já não era.
Era a natureza que se punha em marcha
a molhar - me olhar
como só uma tempestade podia fazer.
(Lune)
quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011
sábado, 12 de fevereiro de 2011
Chá para o desaniversário
"Um bom desaniversário,
Pra quem? Pra mim.
Um bom desaniversário,
Pra quem? Pra ti."
(Alice no País das Maravilhas, versão Walt Disney)
Escrevo hoje, em mais um dia de "desaniversário", um tanto frustrado com algumas coisas. Estava tentando criar um texto, um tributo a um poeta que me impressionou muito e tive um sério bloqueio, não consegui escrever nada de interessante e a rotina atrapalhou-me muito, estes últimos dias não têm sido fáceis. A única coisa interessante a comentar é que na data do meu aniversário, há seis dias atrás, nasceu a filha do meu primo e isso deixou-me muito feliz e finalmente senti, através dessa coincidência, ter algo significativo para comemorar.
É isso, espero resolver essa crise o mais rápido possível e voltar a escrever.
Pra quem? Pra mim.
Um bom desaniversário,
Pra quem? Pra ti."
(Alice no País das Maravilhas, versão Walt Disney)
Escrevo hoje, em mais um dia de "desaniversário", um tanto frustrado com algumas coisas. Estava tentando criar um texto, um tributo a um poeta que me impressionou muito e tive um sério bloqueio, não consegui escrever nada de interessante e a rotina atrapalhou-me muito, estes últimos dias não têm sido fáceis. A única coisa interessante a comentar é que na data do meu aniversário, há seis dias atrás, nasceu a filha do meu primo e isso deixou-me muito feliz e finalmente senti, através dessa coincidência, ter algo significativo para comemorar.
É isso, espero resolver essa crise o mais rápido possível e voltar a escrever.
domingo, 6 de fevereiro de 2011
Frases soltas (Reflexões conexas)
(Bem, resolvi voltar à tona um post meu do Rosa Carne, um projecto que não deu certo, acho que por falta de condições mesmo (vocês não sabem o inferno que é manter um blog só tendo acesso aos computadores do laboratório de uma universidade). Achei-o mais actual do que nunca, apesar de falar de uma obra que já foi concuída e, provavelmente, as frases soltas que eu citei já se apagaram há muito)
Eu estava reparando, nesta grande obra que é a duplicação da Avenida Antônio Carlos, todo dia eu reparo em alguma mudança, alguma obra já pronta, ou que está sendo construida, como o trânsito flui depois de certo ponto, enfim, as pequenas mudanças quotidianas de cada dia. Mas não deixei de reparar a forma invasiva como esta obra (que na verdade é um conjunto de obras) se está dando, invasiva, porque me parece que expõe certos espaços, como se quisesse engoli-los. Na verdade tudo, o marketing, a forma faraônica como se constrói, sem diálogo com a sociedade, tudo isso é invasivo. E eu percebo um pouco dessa invasão através das frases soltas deixadas pelos artistas de rua, sempre ou quase sempre invisíveis aos olhos do senso comum:
"O vento sopra, os obstáculos fazem a música"
"O asfalto me atropela"
"Se essa rua, se essa rua fosse minha, se essa rua, se essa rua fosse casa..."
"Comunidade sem unidade"
"Aqui, neste momento, eu pego o pincel e lanço uma poesia na sua testa!"
"A passos pássaros passo"
Eu estava reparando, nesta grande obra que é a duplicação da Avenida Antônio Carlos, todo dia eu reparo em alguma mudança, alguma obra já pronta, ou que está sendo construida, como o trânsito flui depois de certo ponto, enfim, as pequenas mudanças quotidianas de cada dia. Mas não deixei de reparar a forma invasiva como esta obra (que na verdade é um conjunto de obras) se está dando, invasiva, porque me parece que expõe certos espaços, como se quisesse engoli-los. Na verdade tudo, o marketing, a forma faraônica como se constrói, sem diálogo com a sociedade, tudo isso é invasivo. E eu percebo um pouco dessa invasão através das frases soltas deixadas pelos artistas de rua, sempre ou quase sempre invisíveis aos olhos do senso comum:
"O vento sopra, os obstáculos fazem a música"
"O asfalto me atropela"
"Se essa rua, se essa rua fosse minha, se essa rua, se essa rua fosse casa..."
"Comunidade sem unidade"
"Aqui, neste momento, eu pego o pincel e lanço uma poesia na sua testa!"
"A passos pássaros passo"
Mal-estar fotogénico ou Por que eu não gosto de tirar fotos

I'm nothing, I'm nothing,
I'm nothing 'till you look at me
I'm like a mirror, I'm like a mirror,
I'm nothing 'till you look at me
(Like a mirror - Morphine)
Volto a escrever após uns dias a passar mal, acho que foi este calor insuportável e alguma coisa que comi que não me caiu bem. Volto a escrever também por uma certa obrigação, um sentido que me impulsiona.
Na verdade não gosto de escrever, não me sinto à vontade, sempre acho que sempre há algo errado com minha escrita, às vezes é simplista demais, às vezes muito obtusa, nunca consigo transmitir tudo o que sinto, enfim, tenho um certo incómodo com isso.
É quase o mesmo que eu sinto quando vou tirar uma fotografia. Nunca me senti bem tirando fotos, na verdade nunca me reconheci nelas. É estranho que eu goste tanto de ver fotos dos meus amigos e fique feliz em saber (ou perceber, sei lá) uma felicidade espontânea, mesmo que momentânea, um pedaço de história, um movimento, uma lembrança. Mas eu nunca o sinto quando eu estou lá. Não sou eu quem está lá, é outra pessoa, alguém que eu não conheço, e que por vezes tenho medo. Alguém que parece querer tirar a única lembrança que eu tenho daquele momento-espaço.
Eu costumo guardar outros objectos, flyers, folhetos, cartazes, revistas, jornais, tenho até a minha caixa para guardar estes objectos, a "Fecal Matter" (adoptei-o em homenagem à banda formada em meados dos '80, e que viria mais tarde a chamar-se Nirvana).
Mas mesmo as lembranças da Fecal Matter me parecem não ser nada, eu penso que não há niguém para compartilhá-las comigo, eu tenho medo de um dia ser perguntado o que fiz de legal quando era mais jovem e descobrir, aterrorizado, que não tenho uma única foto minha daquele dia, como se essa maldita foto fosse a única garantia de uma lembrança, de que aquele momento de facto aconteceu.
Nessa nossa Era da Informação, nessa nossa tão admirada e propagada Geração Y, onde é motivo de vergonha alguém não possuir um perfil em uma rede social, onde não ter uma fotografia para ser exibida na rede gera ao mesmo tempo constragimento e desconfiança sobre a real existência da pessoa em questão e por mais que se tente permanecer alheio a essas pressões (como eu permaneci um bom tempo), é impossível não se deixar abalar por isso, impossível não se sentir mal, impossível não pensar que parece não teres feito nada de interessante ao longo da tua curta vida (embora longa de acordo com o padrão de que aos 30 já és velho e portanto deves te portar de acordo com tua idade, já não podes usar as mesmas roupas de antes, nem ouvir as mesmas músicas de quando eras adolescente, "são sem conteúdo, precisas ouvir algo mais moderado, mais adulto", tampouco ir aos mesmos lugares de antes, há lugares mais condizentes). Eu não quero saber disso, eu não quero ser visto como alguém legal e bonitinho, que depois de alguns anos vira escravo da imagem de alguém que já não é mais, prefiro o meu anonimato, prefiro não saber quem sou, prefiro o esquecimento, prefiro não tirar fotos.
Escrito numa tarde quente e abafada de verão, com um mal humor típico de quem passa mal há uns trés dias e tem de aguentar uma televisão ligada no volume máximo para as paredes.
quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011
O início (mesmo sendo o início de um meio)
"Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero uma verdade inventada."
(Clarice Lispector)
Bem, este é o primeiro post - espero que de muitos - deste blog. Já a algum tempo penso em ter um espaço onde eu possa expressar-me de uma forma mais pausada, reflexiva, com uma certa densidade que falta às redes sociais, enfim, algo que demanda certa paciência, certa dedicação (algo típico de quando a internet era à base de internet discada e a comunicação instantânea (?) se dava por MIRC ou ICQ). Já tentei manter um blog certa vez, o Rosa Carne, mas devido a inúmeros problemas objetivos e uma falta crônica de inspiração, acabei por abandonar o projeto. Agora, estou novamente de frente para o PC, tentando expressar toda a sorte de pensamentos que me vêm à cabeça, tão abstratos que por vezes transcendem as palavras. Se vou conseguir ou não, isso é outra história.
É isso, enfim.
(Clarice Lispector)
Bem, este é o primeiro post - espero que de muitos - deste blog. Já a algum tempo penso em ter um espaço onde eu possa expressar-me de uma forma mais pausada, reflexiva, com uma certa densidade que falta às redes sociais, enfim, algo que demanda certa paciência, certa dedicação (algo típico de quando a internet era à base de internet discada e a comunicação instantânea (?) se dava por MIRC ou ICQ). Já tentei manter um blog certa vez, o Rosa Carne, mas devido a inúmeros problemas objetivos e uma falta crônica de inspiração, acabei por abandonar o projeto. Agora, estou novamente de frente para o PC, tentando expressar toda a sorte de pensamentos que me vêm à cabeça, tão abstratos que por vezes transcendem as palavras. Se vou conseguir ou não, isso é outra história.
É isso, enfim.
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