Bem, meu fim de semana não foi fácil. Minha semana não foi fácil. Meu mês não tem sido fácil, aliás, meu ano definitivamente não começou bem. Exageros à parte, é sempre isso que me vem à cabeça quando eu me sinto preso pelo cotidiano. É sempre assim, tudo começa com o cotidiano, as brigas (ou seriam barracos?) de família por motivos fúteis, a falta de tempo para me organizar, o cansaço que nunca tem fim, as poucas horas de sono, aquela apatia que te mata de raiva por não querer fazer nada quando na verdade queria fazer tudo, o fim de semana de quarto e computador, a irritação com todos e a vontade de sumir daqui o mais rápido possivel, a vontade de morrer só pra me vingar das pessoas que teriam remorsos com isso... eu não quero mais pensar nisso, pelo bem da minha saúde mental, já não quero mais essas situações, eu me sinto envelhecido uns cinquenta anos, como se minha vida escorresse pelo ralo. É por isso que eu escrevo, para exorcizar meus fantasmas, passar para o plano das palavras algo que nem as palavras sabem ao certo dizer. A escrita é assim, chega onde faz falta a fala, é o sonho da fala, a fala em seu estado ideal. Talvez pelo meu jeito mais quieto, talvez por tanta coisa guardada aqui dentro, não sei, acho que ainda tem tanto, que nunca vai ter fim, eu sempre vou lamentar-me por isso.
Ainda assim, quero continuar.
(Escrito numa noite de Domingo, depois de mais uma re(des)união em família, um carro roubado e uma estafa, a ouvir "Mal por mal" - Deolinda)
domingo, 13 de março de 2011
sexta-feira, 4 de março de 2011
Reencontro
Fazia algum tempo que não nos víamos. Aquela situação era incômoda, um hiato que eu tentava evitar, eu ligava e não atendia, mandava scraps, e-mails e SMS. Nenhuma resposta. Resolvi ir até o seu local de serviço. Havia se demitido e ninguém tinha notícias suas. Comecei a ficar desesperado, o que aconteceu e por quê? Nada de mal aconteceu desde a última vez que nos encontramos, aliás estávamos tão felizes... se pudesse estenderia aquela noite por toda a eternidade, ele foi bem claro comigo em dizer que estava apaixonado por outra pessoa, mas que não fosse isso ficaria comigo, que eu era a pessoa mias legal com quem já ficou, eu sabia que na manhã seguinte tudo seria diferente, nós não seríamos mais os mesmos e provavelmente não ficaríamos mais. Sim, eu sabia disso, de certa forma aquela noite era uma despedida. Mas eu não imaginava que seria assim tão bruscamente, como se simplesmente tivesse acordado de um sonho, como se fosse algo que nunca aconteceu. Merda, eu odeio esse desgraçado! Por que ele fez isso?
Não queria mais saber, tinha a minha vida de trabalho e rotina, meus amigos que ando vendo tão pouco, minha família que cada vez me é mais estranha, minhas situações cada vez mais absurdas a passar, minhas raivas contidas, meu banzo, meus fim de semana de quarto e masturbação, meus poemas inacabados, e sempre uma xícara de chá verde para tomar às quatro da tarde, pensando nesse filho da puta que sumiu.
Chegou o dia do meu aniversário, que por uma maldita coincidência também era o dele. Já fazia um mês, não tinha como não me lembrar. Mas eu não 'tava a fim de comemorar nem o meu, por que ligar para ele, aliás, o dia do meu aniversário não foi muito bom, só não foi de todo ruim porque nesse dia nasceu uma pessoa muito especial, a filha do meu primo. Além disso eu estava me acostumando com a ausência dele, tentava ser levado pelos pequenos problemas cotidianos que me engoliam aos poucos e deixavam-me cada vez mais distante de qualquer lembrança ruim.
Mas não poderia ficar assim para sempre, eu tinha consciência disso. E aconteceu que um dia, saindo com um amigo após muitos fins de semana em casa, eu o encontrei. Foi tão rápido e surpreendente que não me restou qualquer reação. Eu o vi de costas, sentado num bar, seus amigos me reconheceram e chamaram por mim, que estava caminhando em linha reta ao encontro deles, era impossível dar meia-volta ou mesmo parar, só me restava seguir em frente. Logo que se virou e me viu, seu rosto parecia surpreso, tentou esboçar um sorriso e puxar conversa:
- Oi, como você 'tá?
- Eu vou bem obrigado, e você?
- Eu 'tou bem e olha, me desculpe por ter sumido, eu vi que você me ligou, mas não tinha como eu atender...
(um de seus amigos gritou o garçom desesperadamente)
- Tudo bem, não tem problema, eu só fiquei preocupado contigo (sussurrei tão baixo que acho que nem me ouviu direito)
- Eu queria conversar com você, o que você anda fazendo?
- Ah, vou seguindo minha vida, sei lá, não mudou muita coisa... (um outro amigo lhe chamou a atenção para um rapaz que andava do outro lado da rua)
- Você não se importa d'eu ir ali só um minuto, eu tenho que resolver um problema, mas eu tenho que falar com você.
- Olha, não vai dar, eu tenho que ir, (tinha percebido a impaciência do amigo que me acompanhava, não sabia do que se tratava) amanhã eu tenho compromisso.
- Então 'tá, a gente ainda se encontra, né? (seu amigo lhe chamou novamente)
- Não sei. (saiu tão seco e espontâneo que não deu tempo nem de pensar em conter as palavras)
- Então, até mais. (sem graça)
- Até, tchau!
(…)
Idiota, idiota, idiota, IDIOTA!!! Que raiva, como ele pôde, como eu pude, mas que absurdo, como tudo isso aconteceu e eu não fiz nada?! Meu amigo perguntou o que eu tinha, chutava qualquer coisa que aparecesse em meu caminho. Enfim chegamos a meu ponto, o ônibus não demorou muito e nós nos despedimos, e agora voltava pra casa com a noite como companhia. Cheguei em casa exausto e fui para o meu quarto, deitei-me e ainda não acreditava no que tinha acontecido. Aquilo tudo acabou comigo, só me restava ir dormir, as falas se repetiam na minha cabeça, eu queria esquecer tudo, eu me sentia sufocado, queria chorar e gritar por socorro, mas não tinha forças. Liguei o rádio, tinha um CD que um amigo tinha me dado de presente com uma música tão linda e triste, queria ouvi-la agora. Fui dormir aos som de The Gift, as lágrimas no rosto e a sensação de que estava acordando de um sonho ruim, que teria que voltar a sonhar amanhã.
(Escrito numa noite de Sexta-feira, ao som de "Fácil de Entender - The Gift")
Não queria mais saber, tinha a minha vida de trabalho e rotina, meus amigos que ando vendo tão pouco, minha família que cada vez me é mais estranha, minhas situações cada vez mais absurdas a passar, minhas raivas contidas, meu banzo, meus fim de semana de quarto e masturbação, meus poemas inacabados, e sempre uma xícara de chá verde para tomar às quatro da tarde, pensando nesse filho da puta que sumiu.
Chegou o dia do meu aniversário, que por uma maldita coincidência também era o dele. Já fazia um mês, não tinha como não me lembrar. Mas eu não 'tava a fim de comemorar nem o meu, por que ligar para ele, aliás, o dia do meu aniversário não foi muito bom, só não foi de todo ruim porque nesse dia nasceu uma pessoa muito especial, a filha do meu primo. Além disso eu estava me acostumando com a ausência dele, tentava ser levado pelos pequenos problemas cotidianos que me engoliam aos poucos e deixavam-me cada vez mais distante de qualquer lembrança ruim.
Mas não poderia ficar assim para sempre, eu tinha consciência disso. E aconteceu que um dia, saindo com um amigo após muitos fins de semana em casa, eu o encontrei. Foi tão rápido e surpreendente que não me restou qualquer reação. Eu o vi de costas, sentado num bar, seus amigos me reconheceram e chamaram por mim, que estava caminhando em linha reta ao encontro deles, era impossível dar meia-volta ou mesmo parar, só me restava seguir em frente. Logo que se virou e me viu, seu rosto parecia surpreso, tentou esboçar um sorriso e puxar conversa:
- Oi, como você 'tá?
- Eu vou bem obrigado, e você?
- Eu 'tou bem e olha, me desculpe por ter sumido, eu vi que você me ligou, mas não tinha como eu atender...
(um de seus amigos gritou o garçom desesperadamente)
- Tudo bem, não tem problema, eu só fiquei preocupado contigo (sussurrei tão baixo que acho que nem me ouviu direito)
- Eu queria conversar com você, o que você anda fazendo?
- Ah, vou seguindo minha vida, sei lá, não mudou muita coisa... (um outro amigo lhe chamou a atenção para um rapaz que andava do outro lado da rua)
- Você não se importa d'eu ir ali só um minuto, eu tenho que resolver um problema, mas eu tenho que falar com você.
- Olha, não vai dar, eu tenho que ir, (tinha percebido a impaciência do amigo que me acompanhava, não sabia do que se tratava) amanhã eu tenho compromisso.
- Então 'tá, a gente ainda se encontra, né? (seu amigo lhe chamou novamente)
- Não sei. (saiu tão seco e espontâneo que não deu tempo nem de pensar em conter as palavras)
- Então, até mais. (sem graça)
- Até, tchau!
(…)
Idiota, idiota, idiota, IDIOTA!!! Que raiva, como ele pôde, como eu pude, mas que absurdo, como tudo isso aconteceu e eu não fiz nada?! Meu amigo perguntou o que eu tinha, chutava qualquer coisa que aparecesse em meu caminho. Enfim chegamos a meu ponto, o ônibus não demorou muito e nós nos despedimos, e agora voltava pra casa com a noite como companhia. Cheguei em casa exausto e fui para o meu quarto, deitei-me e ainda não acreditava no que tinha acontecido. Aquilo tudo acabou comigo, só me restava ir dormir, as falas se repetiam na minha cabeça, eu queria esquecer tudo, eu me sentia sufocado, queria chorar e gritar por socorro, mas não tinha forças. Liguei o rádio, tinha um CD que um amigo tinha me dado de presente com uma música tão linda e triste, queria ouvi-la agora. Fui dormir aos som de The Gift, as lágrimas no rosto e a sensação de que estava acordando de um sonho ruim, que teria que voltar a sonhar amanhã.
(Escrito numa noite de Sexta-feira, ao som de "Fácil de Entender - The Gift")
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